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Laurelena Palhano e a vontade de espalhar a prática de uma ‘saúde sustentável’

Foi durante um episódio rotineiro. Laurelena Palhano, 39 anos, foi procurar um antitérmico para sua filha, então com dois anos. Deparou-se com três caixas de medicamentos em sua casa. Achou um tanto exagerado. Lá, localizou outros três vidros de antitérmico e ficou até confusa. “Como isso veio parar aqui?”, brinca ao lembrar do episódio. Atuante na área de sustentabilidade há 20 anos, ficou alerta à situação. “Achei que era dinheiro parado e descartar esses medicamentos têm impacto no meio ambiente e tem um impacto social”. Para organizar a situação – algo que ela ama fazer, aliás – foi buscar um aplicativo de celular que pudesse ajudar. E não achou nenhum. Ali começava a nascer a ideia de seu próprio negócio, que ganharia corpo cerca de dois anos depois, o aplicativo mediList, uma ferramenta que pretende ajudar os usuários a gerenciar e organizar o estoque e consumo de remédios da família “trazendo autonomia, economia e sustentabilidade”, segundo ela.

Mas, na verdade, Laurelena vê que o projeto surgiu nela bem antes disso. “Nasceu da minha vocação, hoje vejo nitidamente. Desde sempre eu, a mais velha de quatro irmãos, família grande, sempre tive esse lado de cuidadora”. Fora isso, desenvolveu toda sua carreira na área social e de sustentabilidade e ficava há anos pensando de que forma poderia tornar essa experiência em algo realmente prático na vida das pessoas. “Pensava em como as pessoas podiam implementar isso no dia, como levar essa ideia de sustentabilidade para a casa, para a família, como tangibilizar de forma prática?”. Descobriu como fazer isso nesse dia em que foi procurar um simples antitérmico para a filha. Na época, ela estava dedicada ao seu doutorado e começou apenas a pesquisar, juntar informações e amadurecer a ideia.

“Desde sempre eu, a mais velha de quatro irmãos, família grande, sempre tive esse lado de cuidadora.”

Laurelena passou por experiências pessoais que a aproximaram dessa
Laurelena passou por experiências pessoais que a aproximaram dessa área.

Nessa época, não entendia nada de tecnologia e mesmo em relação à área de saúde, seu conhecimento sempre foi restrito ao papel do paciente. Mas não uma paciente qualquer. Laurelena passou por experiências pessoais que a aproximaram dessa área. Aos 28 anos teve um câncer de tireoide. Alguns anos depois, a 40 dias de seu casamento, descobriu que tinha endometriose infiltrativa profunda. Nos dois casos, correu atrás de muita informação para poder buscar os melhores tratamentos e fazer os acompanhamentos da forma mais adequada para ela.

“Fiz algumas cirurgias na vida e fui atrás de tudo. Estudei muito e tenho todos os exames organizados, sei que médico pediu o que e com a endometriose foi a mesma coisa. Isso poderia me tornar infértil e para mim, uma pessoa que cresceu querendo ser mãe, foi uma bomba. E fui atrás de descobrir. Mas tive sorte de ter médicos incríveis que me assessoraram e foi possível ter uma gestação perfeita, com fertilização em vitro. E comecei a observar tantas pessoas a minha volta sofrendo pela falta da informação… então boa parte do que aplico na minha vida eu posso ajudar outras pessoas a terem. Posso passar um pouco da minha racionalização para o aplicativo e multiplicar”.

Fora isso, Laurelena viveu situações em hospitais com a família que reforçaram ainda mais essa percepção da importância de organizar os dados de saúde das pessoas. “Vi quanto a falta de organização de informações pode prejudicar um tratamento. Minha mãe quase morreu por interação medicamentosa, porque um médico deu um remédio sem saber o que já tinham dado e ela realmente passou muito mal e quase morreu. Meu pai teve uma série de internações, coisas graves, e cada hora era um médico acompanhando e aquilo tudo é muito desgastante… sou muito de organização e de planejamento e parece que juntou tudo nesse conceito do mediList”.

Sem contar, ainda, com o lado de sustentabilidade do projeto. Laurelena explica que o aplicativo tem essa função prática mesmo de auxiliar os usuários na administração e otimização dos remédios que possuem em casa e, como pano de fundo, a iniciativa trata de saúde sustentável. “Vejo como uma bandeira atual e importante e um tema ainda pouco difundido e pouco compreendido no Brasil. O princípio da sustentabilidade é você usar os recursos de hoje sem privar gerações futuras dos mesmos recursos. Quando aplica isso em qualquer segmento produtivo ou da vida, você racionaliza todo o processo daquele sistema”.

Neste caso, entre os pontos relevantes, está a conscientização no uso dos serviços de saúde. Laurelena fala de alguns estereótipos que a sociedade já possui sobre médicos e consultas e da importância de olhar de forma diferente. “Hoje, em geral, se você vai a uma consulta e o médico não te passa medicamento ou exame as pessoas avalia mal esse médico, acham que ele está desinteressado. Mas será que precisava mesmo? A gente vem de uma sociedade de medicalização e de exames tão exacerbada que é insustentável”.

Fora isso, há a questão do desperdício em casa, como observado por Laurelena quando surgiu a ideia do projeto. Pode parecer algo simples e pequeno, mas se trata aqui do efeito em cadeia. “Se você sabe o que você tem em casa e você mostra ao médio, ele pode te dizer que você pode usar aquele que você já tem, já que tem o mesmo princípio ativo, e quando acabar pode comprar o outro. Você racionaliza a compra e quando você faz isso, em cadeia, você evita um desperdício importante”.

“A gente vem de uma sociedade de medicalização e de exames tão exacerbada que é insustentável.”

Pode parecer algo simples e pequeno, mas para ela se trata de trazer efetividade ao dia a dia das
Pode parecer algo simples e pequeno, mas para ela se trata de trazer efetividade ao dia a dia das pessoas.

Essas preocupações estão todas na base da ferramenta criada por Laurelena e, para além de ajudar no dia a dia, atinge esse outro objetivo de conscientização. “Só compre o que você precisa, só use o que for recomendado, não descarte medicamento da forma errada, não armazene de forma errada, isso também é importante para a potência do recurso. Temos uma missão com a saúde sustentável”, define. “Quis organizar as informações de saúde da minha família e de tantas outras que eu puder ajudar. Passou a ser minha missão trabalhar na saúde sustentável, onde aproveito meu conhecimento acadêmico e técnico e todo meu lado maternal de cuidar e me vejo muito realizada e empreendendo em algo que justamente ajuda a cuidar da família”.

Assim, ela dá continuidade ao seu longo trabalho em sustentabilidade e pode ajudar diversas famílias nessa tarefa diária de cuidado e busca por informações sobre algo tão importante para as pessoas. “Vi que a vida me preparou para acontecer desse jeito. E eu faço muita questão de manter esse olhar de paciente. A voz é do paciente, é uma voz de quem tem dúvida”. Laurelena teve muitas ao longo da vida. E sempre foi em busca da resposta. Mesmo que se tratasse apenas de uma dúvida aparentemente simples como o motivo de encontrar três vidros de remédio iguais em casa. Aprendeu que a solução pode influenciar algo maior. Basta organizar.

* Este conteúdo foi originalmente publicado no site huffpostbrasil.

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